Uma página “existencialista” ou “realista”?



Por que, por vezes, certas palavras desagradáveis nos perturbam enormemente e outra vezes nem nos atingem. Vale a pena acompanhar as reflexões do abade Doroteu.  Uma pequena reflexão existencialista?

Indaguemos, irmãos, por que acontece tantas vezes  que, ao escutar alguém uma palavra desagradável, vai-se sem qualquer aborrecimento, como se não a houvesse ouvido;  enquanto que, em outras ocasiões, mal a ouve, logo se perturba e se aflige? Donde está esta diferença? Terá um motivo só ou vários? Noto haver muitas razões e causas, mas uma é a principal que gera as outras, como alguém já disse. Isto provém, por vezes, da própria situação em que se encontra a pessoa. Se está em oração e contemplação, sem dificuldade suporta o irmão injurioso e continua tranquilo. Outras vezes, pelo grande afeto que sente por um irmão, tudo tolera com toda paciência pela amizade que lhe tem. De outras também, por desprezo, quando faz pouco caso e desdenha quem tenta perturbá-lo, nem se digna olhar para ele como ao mais desprezível de todos, nem dar-lhe palavra em resposta, nem mesmo referir a outrem suas injúrias e maledicências.

Não se perturbar ou afligir-se, como disse, vem de quem se despreza e não se faz caso do que dizem. Ao contrário, aborrecer-se e incomodar-se com as palavras do irmão resulta de não se encontrar em boas condições ou de odiar esse irmão.  Existem muitas outras razões para este fato, ditas de diversos modos.  Mas a causa de toda perturbação, se bem  a procurarmos, está em que ninguém se acusa a si mesmo.

Daí provém todo aborrecimento e aflição. Daí não termos por vezes nenhum sossego. Nem é de admirar por que, como aprendemos de homens santos, não nos foi dado outro caminho para a tranquilidade.  Que assim é, nos o vimos em muitos. Negligentes e amantes da vida cômoda, esperamos e acreditamos andar pelo caminho reto, apesar de impacientíssimos em tudo, sem nunca querermos acusar a nós mesmos.

É isto o que acontece. Por mais virtudes que alguém possua, ainda mesmo inúmeras e infinitas, se abandonar este caminho, jamais terá sossego, mas sempre estará perturbado  ou perturbará a outros e perderá todo o trabalho.

Liturgia das Horas  III, p. 263-264

Originalmente em http://www.franciscanos.org.br/?p=135730
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Jéssica Pires