Quem puder compreender, que compreenda…



Francisco  de Assis compreendeu o mistério do Natal. Talvez um dos poucos que transformou a cena do presépio numa pintura luminosamente bela e numa melodia cheia de harmonias. Ele soube festejar o Natal.

Jacques Le Goff escreve sobre o presépio de Greccio (1223):


“Francisco atende ao convite de um daqueles nobres que ficaram impressionados com ele, Giovanni Velita, senhor de Greccio.  Vai celebrar  o nascimento de Cristo em meio a grutas e eremitérios no alto de uma montanha escarpada. Pede a um amigo da montanha para reconstruir a manjedoura de Belém  de acordo com a imaginação de sua inspiração poética. “Quero lembrar a criança que nasceu em Belém e ver com meus olhos carnais as dificuldades de sua infância pobre, como ele dormiu na manjedoura, e como entre o boi e o burro, deitaram-no sobre o feno”. De todas as partes, na noite de Natal, homens e mulheres das  vizinhanças sobem a montanha de Greccio  com tantas velas e tochas que a noite ficou toda iluminada. Eles cantam, a floresta carrega suas vozes, os rochedos a repercutem. Celebra-se a missa. O santo de Deus está perto da manjedoura, canta o Evangelho, prega “com voz veemente, com sua voz doce, com sua voz clara, com sua voz sonora. Anuncia as recompensas eternas. Um homem entre os assistentes tem uma visão:  subitamente vê o Menino deitado na manjedoura e Francisco se debruçar sobre ele para acordá-lo. Greccio se tornou uma nova Belém.

Jacques Le Goff
São Francisco de Assis
Record,   2001, p. 88-89

O Natal de Greccio na versão de Omer Englebert:


“Aos frades dos eremitérios vizinhos juntaram-se as pessoas do lugar carregando tochas e velas acesas para iluminar a noite, esta noite que brilha qual estrela desde séculos e que brilhará eternamente. Pelo ziguezaguear  da montanha o cortejo caminhava  lentamente na direção do lugar indicado, lá no alto, onde   entre o boi e asno, estava montado o presépio. Sobre as copadas do arvoredo  resplendia uma claridade solar e de rochedo em rochedo ressoavam os ecos da salmodia dos frades, misturada aos cânticos piedosos da multidão. De pé, diante do presépio, tocado de compaixão e inebriado de alegria  inefável, o Pobrezinho aguardava, soltando profundos suspiros.  A missa começou num altar armado  sobre um nicho pendente. O oficiante testemunha que nunca havia experimentado consolação igual ao oferecer o santo sacrifício. Revestido de dalmática, Francisco o assistia como diácono. Chegado o momento próprio, ele cantou o Evangelho com voz sonora e, em seguida, fez o sermão ao povo, para anunciar as alegrias do céu  àquela gente de boa vontade que tinha acorrido ao seu convite.  Ele soube encontrar palavras doces como o mel para falar do pobre Rei que, doze séculos antes, numa noite como aquela, havia nascido  na pequena cidade de Belém, chamando-o ora pelo nome de Jesus, ora pelo nome de Menino de Belém e pronunciando a palavra  Belém  com um balido de ovelha. Cada vez que  repetia,  um desses nomes divinos, lambia os lábios  como para degustar mais profundamente sua doçura”.

Omer Englebert
Vida de São Francisco de Assis
EST Edições
Porto Alegre, 2004, p. 249

Palavras de Éloi Leclerc sobre o Natal de São Francisco:


“No dizer de Tomás de Celano Francisco parou diante do presépio e suspirou, cheio de piedade e alegria, como se estivesse realmente vendo o Menino deitado na manjedoura. Seu espírito e seu coração estavam em Belém. Cantaram as Matinas e logo em seguida começou a Missa. Francisco, diácono que era,  cantou o Evangelho:  “Sua voz forte e doce, clara e sonora”(1Cel  86) anunciava o acontecimento tão feliz aos presentes, mas também a todos homens do mundo inteiro. Nesta  noite, a Cristandade ganhou novamente olhos de criança.  Francisco não era teólogo nem filósofo. “Era, no dizer de Chesterton, um poeta cuja vida inteira era um poema”. Foi o poeta da humanidade e da fraternidade humana. Este foi o sentido do Natal que celebrou em Greccio. No rude inverno dos homens e da natureza, comunicando-se ao povo simples e até mesmo com os animais,  “re-inventou”, numa criação poética, a ternura de Deus como nenhum teólogo  tinha ainda feito. Os homens, ouvindo este canto de Natal, descobriram um mundo novo no qual o Deus de majestade se fez nosso irmão e encontravam-se uns com os outros no relacionamento fraterno.

Éloi Leclerc
Francisco de Assis
O Retorno ao Evangelho
Vozes,  1983, p. 105-106

POR FREI ALMIR. DISPONÍVEL EM http://www.franciscanos.org.br/?p=122189
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Jéssica Pires