Solidariedade, uma experiência transformadora: A visão de Francisco


COMPILAÇÃO DE PUBLICAÇÕES SOBRE SOLIDARIEDADE


A educação para a solidariedade é um processo de emancipação das pessoas envolvidas, que concede ao ser a oportunidade de reconhecer a si e ao outro como sujeitos de direitos, autônomos e interdependentes, em um processo gerador de humanização. Entre os jovens, desenvolver o espírito solidário é considerado um grande desafio nos dias de hoje diante de tantas opções de atividades que eles podem ter acesso em suas horas livres. Mas experiências bem sucedidas no País mostram que os jovens têm sim vontade de exercitar a solidariedade. O que falta, talvez, é facilitar os primeiros contatos destes jovens com este mundo e atraí-los com ações bem estruturadas e que promovam de fato a educação para a solidariedade e não o simples assistencialismo.


Uma das maiores provas do comprometimento dos jovens brasileiros com a solidariedade pode ser mostrada em uma iniciativa desenvolvida há dez anos por um grupo educacional brasileiro, que já contou com a participação de aproximadamente 1,8 mil jovens em pleno mês de janeiro, mês que é sinônimo de férias, praia e descanso. Chamada de Missão Solidária Marista, a iniciativa da Pastoral do Grupo Marista tem por objetivo promover a educação para a solidariedade a partir de uma experiência vivencial de aprendizado recíproco e dialógico. Os jovens têm a oportunidade de transformar as férias em uma importante experiência de amor ao próximo.




Iniciativas como esta, para serem bem sucedidas, precisam ser uma “via de mão dupla”, ou seja, devem almejar tanto o despertar do olhar crítico, da sensibilidade solidária e da espiritualidade sociotransformadora dos jovens que participam, a fim de que se tornem agentes de transformação social no contexto em que estão inseridos; quanto a emancipação e a maior união da própria comunidade que acolhe o projeto.

As experiências vividas pelos jovens precisam inquietar e desacomodá-los. Os participantes devem retornar às suas realidades e perceber as injustiças sociais existentes, para que sejam agentes de transformação social e consigam, junto a outros jovens, mudar a realidade em busca de um mundo mais fraterno e justo.

O Papa Francisco afirma em sua exortação que “na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar vida aos demais. A vida amadurece a medida que é entregue para gerar vida aos outros”.

Assim sendo, ações como a Missão Solidária Marista devem despertar nos jovens o desejo de participar da formulação das políticas públicas consistentes, de inserir-se no mundo da política, de fazer incidência nos espaços que produzem a injustiça e a pobreza. Instituições comprometidas com a construção de um mundo melhor, especialmente as que atuam na área educacional, não devem formar jovens anestesiados frente às injustiças sociais, nem assistencialistas baratos, mas jovens conscientes de que é preciso atuar de forma orgânica e organizada para gerar transformações consistentes e duradouras. [1]


A frase “dado e nascido por nós à beira do caminho”, construída a partir do salmo da natividade do “Ofício da Paixão” (OfP 15,7) de São Francisco de Assis, expressa com bastante propriedade a idéia central da temática: uma visão de Jesus Cristo segundo Francisco de Assis, desde a perspectiva da solidariedade. 


A solidariedade está sendo apontada, de muitas formas e desde muitos contextos, como uma das mais adequadas alternativas para a sobrevivência, não só da humanidade, mas inclusive do planeta. Inicialmente pensávamos até na possibilidade de uma “cristologia da solidariedade” em Francisco de Assis, hipótese que logo se revelou ousada demais, pois o Poverello, pessoa de formação teológica apenas mediana, dificilmente poderia fornecer toda a riqueza dos dados necessários para uma sistematização completa de uma cristologia neste enfoque. Ao longo da história, muitas páginas foram escritas a respeito da visão de Jesus Cristo em Francisco de Assis. E não podia deixar de ser assim, porque Jesus Cristo foi a sua norma máxima de vida, o seu ideal supremo, a sua referência constante. Recentemente têm surgido ensaios mais densos e de boa qualidade de “cristologia franciscana”. Necessitamos desta visão de solidariedade de Francisco dada a realidade atual, tanto pelos clamores do mundo dos pobres, (em nosso continente, a imensa maioria da população está sofrendo um progresso crescente de marginalização e exclusão social), quanto pelos clamores da natureza que também sofre e geme em dores de parto, esperando, com ansiedade, a manifestação, da parte dos filhos de Deus (Rm 8, 21-23), de um modo de vida mais planetariamente fraterno e solidário com todas as criaturas. Impele-nos ainda o anseio, nem sempre evidente, dos franciscanos e franciscanas, em recuperar a identidade deste modo de ser de seu inspirador, Francisco de Assis. O modo-de-ser profundamente solidário de Jesus Cristo, que Francisco soube divisar de uma maneira aprimorada, não apenas poderia devolver a devida significatividade para a vida dos homens e mulheres de hoje, cada vez mais carentes de uma autêntica “razão de viver”, como pode, sobretudo, contribuir decisivamente para “criar novos céus e nova terra” (Apc 21,1) mediante o estabelecimento de novas relações, baseadas na fraternidade e na solidariedade, iniciando, quem dera, por aqueles e aquelas que tentam viver bebendo da herança franciscana. Não poderia ser esta uma nova “configuração” da identidade franciscana?

No trabalho de obtenção de titulo de Doutorado do Frei Aldir Crocoli busca a solidariedade na visão cristológica de São Francisco de Assis dentro dos textos originais de Francisco confrontando também outras traduções. Acompanhe a seguir a Entrevista concedida pelo autor para a Revista IHU On-Line:





Entrevista

Francisco: o peregrino da paz



Para o frei Aldir Crocoli, a fraternidade e a solidariedade são palavras que pertencem à coluna vertebral de todo o projeto de vida de São Francisco de Assis. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele afirma que “o ser humano do século XXI precisa aprender isso de Francisco e de Jesus Cristo: renunciar a ser centro (egocentrismo) e constituir o outro como centro (Reinocentrismo). Este modo de ser transforma as relações humanas”.

Por: IHU Online



Aldir Crocoli possui graduação em Filosofia, pela Universidade Católica de Pelotas, e em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestrado em Teologia, pela Pontificium Atheneum Antonianum, e doutorado em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), atuando principalmente nos seguintes temas: paz, cidadão, direitos humanos, democracia, pessoa humana, leprosos, realização humana, excluído, kénosis, História das Fontes Franciscanas, releitura das fontes, história do movimento franciscano, espiritualidade franciscana. É autor de, entre outros, Francisco de Assis e o Diálogo Inter-Religioso (Petrópolis-RJ: Família Franciscana do Brasil, 2006).





IHU On-Line - Como definir a visão cristológica de São Francisco de Assis? Que Cristo aparecia na sua maneira de pregar o Evangelho? 

Aldir Crocoli - No século XIII, dominava a cristologia triunfalista. Falava-se muito do Cristo glorioso, identificado como Rei poderoso. Nas catedrais e grandes basílicas, se encontrava costumeiramente, encimando as cúpulas, a pintura do Pantocrator , representado pelo Cristo sentado no trono real, com o báculo do poder, às vezes com o globo terrestre na mão ou com o livro da sabedoria. Ainda hoje se vêem muitas dessas imagens.

Francisco de Assis, mesmo sem ser seu iniciador, se posiciona em outra vertente: a de um Cristo mais humano. O movimento já vinha fazendo caminho há um século. São Bernardo de Claraval falava muito dos sofrimentos (físicos) de Jesus Cristo. Desenvolviam-se devoções dedicadas aos sofrimentos de Jesus Cristo: à via-sacra, às cinco chagas, ou simplesmente se meditava nos seus sofrimentos psicológicos (fadigas, desprezos etc.). Cresciam ainda devoções ligadas à Virgem Maria: as sete dores, o presépio etc. 

Francisco de Assis não percorreu esse caminho dos sofrimentos biopsicológicos de Jesus Cristo. Porém, tem uma visão profundamente humana de Jesus Cristo. Qualifica-o, sem abandonar sua grandeza, de “pobre e humilde”. Tem claro que “Jesus escolheu, juntamente com sua mãe e seus discípulos, a vida de pobre”. Chega a dizer que “se fez peregrino e viandante, vivendo de esmolas”. Caracteriza-o pelo movimento da transcendência, isto é, pela descida para os lugares sociais mais ínfimos. Seu modo de ser tem face humilde e despercebida como quando está presente e escondido na eucaristia que a gente nem vê e nem percebe. Seu primeiro biógrafo conta que em Jesus Cristo “Deus quis depender de peitos humanos” como para dizer que sua vida estava submetida ao poder de uma simples criatura humana. 

Sua devoção ao presépio conecta-se a um Jesus Cristo simples, humano, pobre e humilde. Ao coordenar a realização do famoso presépio de Greccio , em 1224, Francisco “queria ver como o pobre menino ficava deitado sobre as palhas entre o boi e o burro”, aquecido pelos animais, pois lhe faltara o calor da acolhida humana. 

Passar desta imagem de Jesus Cristo pobre e humilde para sua identificação com o pobre do dia a dia é um caminho breve. Francisco se condoia ao ver qualquer pobre sendo maltratado. Dizia: “Quem ofende um pobre, ofende a Cristo de quem é a imagem”. Seu amor e atenção para os pobres e leprosos decorria deste fato: eram a representação viva daquele que se fez pobre para nos enriquecer pela sua pobreza, endossando a afirmação do apóstolo Paulo. Para ele, então, o projeto de vida de um/a discípulo/a de Jesus Cristo consiste em ser solidário colocando-se ao serviço dos últimos como o Mestre que no momento mais decisivo da vida, levantou da mesa, vestiu-se com um avental e, com bacia e toalha, passou a lavar os pés dos seus discípulos.



IHU On-Line - Qual é a importância da fraternidade e da solidariedade para o santo de Assis? 

Aldir Crocoli - Estas duas palavras pertencem à coluna vertebral de todo o seu projeto de vida. Solidarizando-se com os mais necessitados e excluídos (os pobres, os leprosos, os excomungados da sociedade por crimes civis), foi compreendendo que todos somos irmãos e irmãs. Aliás, o que mais resgata a dignidade de um excluído do sistema é sentir outros condividindo sua situação, não na condição de poderosos e sim na mesma condição de fragilidade para, desde aí, encontrar conjuntamente alternativas de solução.




IHU On-Line - Que tipo de solidariedade é mais urgente em nossa sociedade hoje, com base nos ensinamentos franciscanos? O que o ser humano do século XXI mais precisa aprender de Francisco e Clara de Assis? 

Aldir Crocoli - Antes de dizer que tipo de solidariedade a sociedade de hoje precisa aprender para encarnar o espírito franciscano, é preciso reconhecer que é necessário aprender a ser solidário. O sistema socioeconômico hodierno está calcado sobre a competitividade e a concorrência. Estas estimulam a sobrepor-se aos outros. A pessoa se sente realizada ao estar mais à frente ou acima das demais. A conseqüência disso é que a pessoa é levada a servir-se dos outros, a valorizá-los na medida em que lhe são úteis. 

Já a dinâmica da solidariedade impele a “estar-com-os-outros”, estar ao lado deles. Aqui a pessoa é feliz ao sentir-se unida, sintonizada, participante da “tavola rotonda” como se dizia na Idade Média. Não nutre desejo de estar acima ou ser mais importante. Antes vive preocupada e se autovigiando para garantir permanência nesta posição de igualdade, cuidando para que todos permaneçam incluídos. Esta maneira de ser se contrapõe à proposta pela sociedade de hoje, mas é a base para a solidariedade. A fraternidade emerge daí. A caridade, como é pensada comumente permite que simplesmente se dêem coisas, ao passo que a solidariedade cria laços de compromisso com o outro, que passa a ser irmão. O ser humano do século XXI precisa aprender isso de Francisco (e de Jesus Cristo): renunciar a ser centro (egocentrismo) e constituir o outro como centro (Reinocentrismo). Este modo de ser transforma as relações humanas.



IHU On-Line - Considerando a crise ambiental e climática, como a forma de são Francisco olhar para os animais e a natureza pode nos ajudar a repensar o tratamento que damos ao Planeta?

Aldir Crocoli - No tempo de Francisco, não havia esta perspectiva de apocalipse planetário hoje vivido. Mas impressiona a muitos, de todas as culturas, raças, religiões e épocas, a maneira de Francisco se relacionar com a natureza. Ele tira a minhoca do caminho para não ser pisada. Pede para os lenhadores cortar a árvore após o primeiro galho, a fim de que possa rebrotar. Quer que se deixe um canteiro na horta para as ervas daninhas poderem viver livremente. Compra uma ovelha levada ao abate e a devolve ao proprietário para que cuide e mantenha viva. Liberta uma lebre presa em alçapão. Louva pelo sol e com o sol ao seu Criador. Louva pelos pássaros com quem conversa amigavelmente. Dialoga com o urso e o transforma em animal de estimação. Pisa com cuidado nas pedras, porque são criaturas do mesmo Deus e Pai. Não pisa na água com a qual acabou de se lavar, em agradecimento pelo importante serviço que lhe prestou etc. Por trás desta postura se percebe um grande respeito por tudo.

O filme Francesco, de Liliana Cavani , atéia e comunista, ilustra esta perspectiva com uma bela cena: Francisco e seus irmãos ganharam um cordeirinho para fazer sua refeição. Como ninguém tinha coragem de sacrificá-lo, preferiram ver o animalzinho sair livremente e passar fome que praticar aquela violência contra o indefeso animal. 

Não se trata de poesia nem de irrealismo. É resultado de um processo de comunhão com o outro que alcança até as criaturas chamadas, estranhamente, de “irracionais”. O modo de ser de Francisco e primeiros companheiros foi possível por haverem abdicado de toda a forma de posse, de querer tirar proveito das criaturas. Preferiram sentir-se irmanados, admirar a grandeza e beleza do ser divino que refletem. Nesse contexto de relações, o mundo se transforma em sinal da presença divina. Nascem o respeito e a reverência. Se a humanidade tivesse esse tipo de relacionamento com o universo, indiretamente se acabaria com o problema do superaquecimento do planeta, com a destruição da camada de ozônio, com a poluição do ar, das águas e outros problemas ecológicos.

Numa passagem dos escritos de Francisco, encontra-se a afirmação de que deveríamos “estar sujeitos a todas as criaturas irracionais”. Entenda-se: não para deixá-las nos prejudicar. Submeter-se a elas no sentido de ajudá-las a serem aquilo que realmente são, aprimorando suas qualidades enquanto criaturas. Nesta perspectiva, a engenharia genética tomaria direção bem diversa, pois o que ela faz hoje é em vista do maior lucro. Vê-se que nossa racionalidade é instrumental; a de Francisco era fraternal.



IHU On-Line - Qual é a importância de São Francisco como homem da Igreja e missionário de sua instituição religiosa?

Aldir Crocoli - Aqui poderiam ser considerados dois aspectos para contextualizar melhor a resposta. Em primeiro lugar, a respeito de Francisco como homem da Igreja. Entenda-se bem que Francisco é, sem dúvida alguma, uma pessoa com um profundo senso eclesial. Porém, foi alguém que não quis se identificar com a hierarquia da Igreja. Quis permanecer no seio da Igreja sem pertencer à sua estrutura de poder. Raoul Manselli , um leigo, professor de história medieval e muito amigo dos frades, afirmava que Francisco sempre se sentiu leigo, mesmo depois de ser ordenado diácono e de ter a regra aprovada. Queria igualmente que seus irmãos não pertencessem à Hierarquia, mas que permanecessem na condição de “irmãos menores”. 

O outro ponto a ponderar é sua missionariedade que está submetida à opção pela “vida de penitência”. Quer dizer, ser missionário requer, para ele, a condição de busca da conversão, da mudança de vida. Missionar, mais que anunciar doutrinas teológicas e religiosas, é testemunhar o amor de Deus. Parece que o Documento de Aparecida , de maio deste corrente ano de 2007, confirma a mesma perspectiva ao eliminar o “e” que havia entre as duas palavras do tema da Assembléia, propondo simplesmente “discípulos missionários”, por serem o discipulado e a missionariedade duas faces da mesma realidade. 

Nesta perspectiva, Francisco é alguém de vanguarda da Igreja, discípula e enviada por Deus para estimular o engajamento na construção do Reino. Pela primeira vez na história de uma instituição religiosa-eclesial, prescreveu que os frades que desejassem ir entre os sarracenos e outros infiéis primeiramente deveriam se portar como irmãos, sem discutir doutrinas teológicas, convivendo pacificamente com eles. Somente ao perceber a existência de condições favoráveis à sua recepção, poderiam anunciar as verdades da fé cristã. Em certo sentido, esse “poverello” de Assis, sem grande cultura de erudição é um eloqüente testemunho de uma postura dialogal, característica da pessoa em processo de conversão.



IHU On-Line - O senhor pode falar sobre a importância do Tau como símbolo do jeito franciscano de ser? Qual a mística que envolve o Tau? 

Aldir Crocoli - Francisco na primeira viagem a Roma foi se hospedar numa casa de um grupo de religiosos dedicados aos leprosos. Nesta casa, o símbolo do Tau estava desenhado nas portas, nas panelas, nos pratos e talheres, no hábito, em todo o lugar enfim. A cruzada das crianças (ou dos pobres), de 1212, adotara Tau como distintivo do seu exército para combater os “homens infiéis a Deus”, como se dizia então. Também aí estava desenhado em todas as armas. Alguns anos mais tarde, em 1215, durante o Concílio de Latrão , assistido por Francisco, o papa Inocêncio III , baseando-se no profeta Ezequiel 9 , convocou a todos para aceitarem o Tau como sinal daqueles que estão em processo de conversão e se engajam na cruzada contra os muçulmanos. Francisco se encanta com esta mística de estar sempre em processo de conversão a Jesus Cristo. Passa a usá-lo em substituição ao seu nome. Assim acontece no bilhete a Frei Leão que contém, no verso, a bênção. Francisco nele, ao invés de assinar o nome, desenha o Tau. Também em Fonte Colombo, perto de Rieti, local em que sofreu a cauterização dos olhos, no espaço da capelinha em que costumava rezar, para designar seu lugar, desenhou o Tau sob a janela. Este servia de memória de seu projeto de vida: ser alguém em constante processo de conversão. Esta é a mística despertada pelo Tau. 

Hoje, muitos franciscanos gostam de usar o Tau para se identificar com essa mística de Francisco que, na verdade, deveria ser de todo o seguidor de Jesus Cristo.



IHU On-Line - Qual é a principal mensagem de Francisco deixada no seu Testamento?

Aldir Crocoli - É sempre arriscado querer dizer a principal mensagem de um texto, sobretudo quando é extenso como o Testamento de Francisco. Em todo o caso, na minha opinião, poderia ser assim formulada: o decisivo é seguir o caminho da transdescendência (ser capaz de descer aos lugares inferiores na constituição social) e ali permanecer. No dizer do próprio Francisco: ser Irmão Menor. Não por um malsão autodesprezo e sim porque tem clareza de que os valores mais fundamentalmente humanos são os menos considerados pela sociedade.

O Testamento evidencia essa mensagem na primeira parte que narra o caminho percorrido por Francisco e os primeiros frades para o meio dos últimos da sociedade, por causa de Jesus Cristo. Na segunda parte, onde olha para o futuro, alerta com severidade para o risco de comportamentos de “maior”. Ali quer confirmar os irmãos na humildade e na solidariedade aos últimos.



IHU On-Line - O que tinha de especial na espiritualidade vivida por Santa Clara?  

Aldir Crocoli - Numa palavra, uma grande paixão por Jesus Cristo, a quem ela comparava a um espelho: “Olhe dentro desse espelho todos os dias... Observe no início desse espelho (nascimento): veja a pobreza e a humildade... Olhe no meio do espelho: contemple aí suas lutas, esforços e ofensas recebidas. Considere o fim do espelho: o amor que o levou a morrer a morte mais ignominiosa”. Creio que quando alguém vive, de fato, um encantamento por Jesus Cristo e por sua causa (realidades inseparáveis) se torna pessoa irradiadora de alegria, de vigor apostólico, de espontaneidade e criatividade, de coragem profética. Clara refletia essa luminosidade.



IHU On-Line - Como está a família franciscana no Brasil e no mundo? Quais são os valores que a regem e os principais desafios a serem vencidos?

Aldir Crocoli - A árvore da família franciscana apresenta muito vigor. É composta por mais de 450 ramos (diferentes congregações religiosas) e seu número de leigos está próximo a um milhão. Porém, assim como as demais congregações e ordens religiosas, sente a necessidade de retomar o sonho original. Vive-se a necessidade e a urgência de “voltar às fontes” como dizia o Concílio Vaticano II . “Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina e Caribe” é o lema da celebração do VIII Centenário do nascimento do Carisma Franciscano (1208–2008) que a grande família franciscana mundial está comemorando. Os desafios apontam para duas direções diferentes e complementares: a) redescobrir ou redefinir a utopia que animou o período áureo inicial; e b) encarnar essa mística aqui e agora.



Da primeira biografia de Francisco de Assis escrita por Tomás de Celano :

“Aos frades que cortavam lenha (Francisco) proibia arrancar a árvore inteira, para que tivesse esperança de brotar outra vez. Mandou que o hortelão deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que a seu tempo o verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e para as flores, para lembrarem a suavidade eterna aos que as olhassem.
Recolhia no caminho os vermezinhos, para que não fossem pisados, e mandava dar mel e o melhor vinho às abelhas, para não morrerem de fome no frio do inverno. Chamava de irmãos todos os animais, embora tivesse preferência pelos mais mansos”.


Solidariedade e Família


A família é um dos primeiros lugares onde as pessoas aprendem a lição da solidariedade que deverá unir os humanos. Num mundo de individualismo, competição e indiferença, a família será sempre um espaço de construção do tecido da solidariedade, plataforma onde as pessoas aprendem a viver com, a conviver. Sem atenção carinhosa e solidária o bebê que nasce não tem condições de sobreviver. Morre ou quanto muito vegeta. No seio da família, histórias se entrecruzam, vidas convivem umas com as outras, há proximidade física e afetiva.

Os membros de uma família experimentam um sentimento de pertença. Não são seres jogados a esmo. Uns pertencem aos outros. A menina que está ouvindo uma aula de matemática, pensa no afeto da avó que está para chegar. Ela pertence aos seus. O médico que faz uma cirurgia complicada não está solto. Logo que termina a operação telefona para a mulher para dizer que tudo correu bem, muito bem. Os dois ao telefone se dizem palavras de carinho. Uma vida que pertence a outra vida. Tal pertença não tem o mesmo caráter de se possuir uma bola, uma joia, um carro. São vidas que pertencem a outras vidas. Os que são solidários em família vivem perto, vivem juntos. Sentam-se juntos à mesa, juntos rezam ao Senhor solidariamente, juntos se ocupam das tarefas da casa: lavar a louça, molhar as plantas, preparar a comida, comprar o pão. Ninguém é empregado de ninguém. Todos se interessam por todos, na delicadeza dos gestos, na atenção recíproca, adivinhando aquilo que o outro precisa. A solidariedade, aqui e ali, quer dizer renúncia.

Há a solidariedade na hora da doença: fazer a tarefa do outro, dormir a seu lado no hospital, dar-lhe um banho, fazer-lhe um curativo, acompanhá-lo quando a febre aumenta. Solidariedade em família é demonstrar que o outro é importante. A senhora idosa, avó, que vai ao médico sabe que na sala de espera um filho, uma neta ou uma nora esperam por ela e cuidarão que não lhe falte o necessário para sobreviver dignamente.

Sim, os membros frágeis da família sabem que podem contar com o apoio de seus familiares: a criança com medo disto ou daquilo aperta-se contra o peito do pai; a mulher que soube da morte trágica de seu irmão num acidente, sabe que contará com a solidariedade do marido; a velha senhora sabe que seu filho haverá de pagar-lhe o plano de saúde ou que os netos virão para conversar e assim quebrar sua solidão.

A família é o primeiro espaço de solidariedade humana. É primeira escola de solidariedade. Por isso, a família precisa ser forte.





Frei Almir Guimarães [4]

[1] Por: Luiz Santana Galline, pastoralista do Setor de Pastoral do Grupo Marista
Disponível em: http://jovensconectados.org.br/solidariedade-uma-experiencia-transformadora.html

[2] http://www.dbd.puc-rio.br/pergamum/biblioteca/php/index.php?codObra=0&codAcervo=146951&posicao_atual=21&posicao_maxima=151&tipo=bd&codBib=0&codMat=&flag=&desc=&titulo=Publica%E7%F5es%20On-Line&contador=0&parcial=&letra=oc&lista=E
[3] http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1356&secao=238
[4] http://www.franciscanos.org.br/?p=92708
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Jéssica Pires