A “noite escura” de São Francisco



Li e reli o artigo de Leonardo Boff sobre a “noite escura” de Tereza de Calcutá. Aliás, seu título é intrigante: “Uma santa que não acreditava em Deus”. Dizia ela: “Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que Ele, verdadeiramente, não existe” (agosto/1959). Porém, desenvolveu um trabalho, universalmente reconhecido, o de acolher e dar morte digna a indigentes terminais.

Outra Tereza, a de Lisieux, assim escreveu no Diário de uma Alma: “Não creio na vida eterna; parece-me que, depois desta vida mortal, não me resta senão o amor”.

O filósofo Nietzche fala da “morte de Deus” e o teólogo Bonhöffer nos deixa este desconcertante conselho: “Vivei como se Deus não existisse, mas vivei no amor, no serviço aos irmãos e no cultivo da solidariedade”.

Cristo, no Getsêmani, suou sangue e, na cruz, sentiu-se abandonado e confiante: “Meu Deus, por quê me abandonaste?! Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.

Leonardo Boff termina o artigo com estas palavras: “Crer em Deus, não é aderir a uma doutrina. É uma atitude e modo de ser, é aderir a uma esperança que é “convicção das realidades que não se veem” (Hb 11,1).

Provocado por este artigo e inspirado no livro “Sabedoria dum Pobre” de Elói Leclerc (Braga, 1977), quero pontuar a “noite escura” de Francisco, citada pelo próprio autor, intermediando-lhe outros textos.

O contexto histórico teria sido os anos de 1219/1220, quando Francisco participou de uma das Cruzadas pela Libertação dos Lugares Santos, na Palestina. As legendas franciscanas contam que se encontrou com o Sultão. Este ficou impressionado com a pessoa amiga e fraterna de Francisco. Entre os frades, porém, corria o boato de que teria sido martirizado.

Neste ínterim, a “Ordem crescera em número, inclusive, com frades estudados e de prestígio. Estes defendiam a elaboração de uma nova Regra, inspirada nas grandes Ordens, fortemente, constituídas e hierarquizadas. Projetavam-se construções vastas e duradouras; o estudo e uso do dinheiro são indispensáveis; a pobreza e a simplicidade são ideais belos, mas insuficientes; frades amancebados lançavam descrédito sobre os demais irmãos” (Leclerc, p. 22, 25).

Isto gerou um mal-estar entre os primeiros companheiros de Francisco e aos que aspiravam uma vivência do Evangelho na simplicidade e pobreza. Havia uma forte “cobrança para que Francisco reassumisse o governo e ameaçasse os faltosos com sanções” (p. 169).

“Uma pesada tristeza acabrunhava-o como uma ferrugem que tinha se prendido à sua alma, não cessando de o corroer noite e dia. (…) O desgosto era grande demais para o esconder. Retirava-se às montanhas para ocultar sua mágoa” (p. 25-26).

“Dir-se-ia o rosto de um homem em terrível agonia” (p. 21) a “debater-se em noite escura como pássaro na armadilha” (p. 172).

Por isso, “decidiu ir a um dos eremitérios dos Apeninos, junto com Frei Leão e onde estavam alguns dos primeiros companheiros que entraram na Ordem” (p. 23). Era inverno.

Sabemos que não era seu costume agir assim. Se todo o ano fazia retiro de 40 dias no Monte Alverne, fazia-o em setembro, em um clima ameno. Leclerc, à semelhança de uma parábola (comparação), quer mostrar a “noite escura” de Francisco com o intenso inverno apepino.

Figuras bíblicas podem, também, estarem relacionadas com Francisco. Moisés, no deserto, foi rejeitado pelo seu povo que o ameaçou apedrejá-lo (Ex 17,4); nem sabiam do seu paradeiro (idem 32,1); urdiram uma trama para escolher outro líder que os levasse, novamente, ao Egito (Nm 14,1-4).

No entanto, ele estava na montanha, aplacando a “ira de Javé”, causada pela idolatria (Ex 32,11-14). Deus falava-lhe “face a face” (idem 33,11), ao ponto de “os filhos de Israel notarem que sua pele e rosto resplandeciam como sol e não se atreveram aproximar-se dele” (34,30). “Nunca surgiu, em Israel, um profeta semelhante a Moisés e sua morte foi chorada “durante 30 dias” (Dt 34, 8.10).

O Livro de Jó é uma preciosa pérola da sabedoria sapiencial. Seu protagonista é um homem justo e correto em todo o seu agir (Jó 1,1), mas quer saber as razões do seu súbito infortúnio: morte dos filhos, perda total dos bens materiais (1,13-19) e o seu “corpo atingido por uma lepra total da cabeça aos pés” (2,7). Sua mulher o recrimina pela sua integridade e sugere-lhe que “amaldiçoe a Deus e morra de vez” (2,9). Os três amigos (Elifaz, Baladac, Sofar) querem convencê-lo – pela ´teologia da retribuição´ – que ele é o culpado de sua deplorável situação.

Jó não aceita e, permanecendo fiel a Deus (1,21-22), faz perguntas e discute com eles. Procura saber, até do próprio Deus, o motivo de seu sofrimento. Quando Este se manifesta, ele O reconhece como Deus e conclui: “Os meus ouvidos tinha ouvido falar de Ti, mas agora veem-te com os meus próprios olhos” (42,5).

Com Francisco, deu-se o mesmo! No inverno de sua crise e no calor amoroso do Pai, saboreou “Deus como Deus e isto basta” (Leclerc p. 101-103, 119).

“Deus tem o seu tempo e aprender a viver no tempo de Deus é possuir o coração de Deus: é o segredo da sabedoria (p. 82). “Somos puros de coração quando descobrimos que `Deus é Deus, eternamente Deus´. Então, nos “extasiaremos diante de sua misericórdia e daremos graças por causa d´Ele mesmo” (p. 139).

Depois deste inverno, rompe a primavera. Francisco desce do eremitério e encontrará os mesmos frades e problemas, mas “agora sem a mínima ansiedade, nem aperto no coração. (…) Não que se tivesse tornado indiferente. O seu amor e as exigências da Ordem cresciam e se aprofundavam. Mas estava em paz. Também para ele, havia chegado a hora da maturação” (p. 166).

Para concluir, duas considerações. A primeira: atravessar a noite escura para chegar à aurora, é um processo extremante exigente de fé. É, como diz o apóstolo Paulo, “agora vemos (Deus) como num espelho, de maneira confusa; depois, O veremos face a face” (1Cor 13,12). É chegar ao limite último da fé, quando não mais precisaremos dela porque “O veremos como Ele é”. Esta plenitude de Deus em nós, exige um despojamento total, assim como fez Cristo: de imortal fez-se mortal, obediente até a morte e morte de cruz… por isso Deus O exaltou (cf. Fp 2,5-12). Esvaziar-se de si mesmo é criar espaço para que Deus seja “tudo em todos” (= morte/ressurreição).

A segunda consideração é a colocação de Frei Tancredo (e que, hoje, poderia ser feita por qualquer um de nós): “Francisco, acabaste de descrever o teu estado de alma e admiro-o. Mas não deves ficar nesse ponto de vista pessoal e sonhar, unicamente, com a tua perfeição. Existem os outros. É preciso que não os esqueças”.

Ao que Francisco responde: “Existem os outros e penso muito neles. Todavia, não se ajuda os outros a praticarem a mansidão e paciência evangélicas, começando por barafustar (= entrar precipitadamente como em busca de alguma coisa) contra os que discordam de nós, quando, afinal, devíamos era olhar para nós mesmos” (Leclerc p. 170/171).

Francisco mostrou-se um discípulo de Cristo, pois foi este o caminho que indicou às lideranças religiosas quando lhes fez o veemente apelo de se converterem da hipocrisia (cf. Mt 23,1-36).

3 de novembro de 2016
Frei Luiz Iakovacz
Disponível em http://www.franciscanos-rs.org.br/a-noite-escura-de-sao-francisco/
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Jéssica Pires